O que meu Pai me ensinou sobre pássaros - e o que eu demorei 40 anos para entender

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O que meu Pai me ensinou sobre pássaros - e o que eu demorei 40 anos para entender
Photo by Kristians Greckis / Unsplash

O que meu pai me ensinou sobre pássaros — e o que eu demorei 40 anos para entender

Meu pai gravava pássaros.

Tinha um gravador que parecia um tijolo — aquele tipo de aparelho dos anos 70, pesado, com uma tecla vermelha de REC e outras para play, stop, avançar e voltar. Ele saia com aquilo para o quintal, ficava parado, quieto, esperando. E gravava os cantos.

Depois ficava ouvindo. Repetindo. Como se cada nota fosse uma palavra que ele precisava memorizar.

Cresci em uma casa simples no bairro do Belenzinho, zona leste de São Paulo. Nascido em 1971, filho do meio de uma família sansei — meus avós paternos e maternos vieram de Okinawa no final do século XIX e início do século XX. Meu pai nasceu em Santos, minha mãe em Avaré. Eram filhos de agricultores. Gente que usava os animais para comer e trabalhar. Essa era a relação que conheciam.

No nosso quintal no Belenzinho havia umas 30 gaiolas e viveiros. Curió, sabiá, pintassilgo, coleiro — a fauna brasileira presa em aramados que meu pai limpava com mais cuidado do que muita gente cuida de casa.

Nas férias, íamos para Registro, Jacupiranga, Sete Barras — interior do Vale do Ribeira, nas casas dos primos. E era lá que eu acompanhava meu pai caçar.

Ele tinha de tudo: alçapão, redes, visgo — uma cola que ele espalhava em arames finos para prender os pássaros que pousassem. Tinha até um pássaro empalhado para funcionar como isca, atraindo outros da mesma espécie para a armadilha. Saíamos cedo, caminhávamos pela mata, observando. Ele me ensinava a perceber por onde os pássaros voavam, onde instalávamos as redes — sempre quando não tinha vento, porque a brisa criava uma "barriga" na rede que os alertava.

E me ensinava a ouvir.

Antes de ver o pássaro, eu aprendia a reconhecê-lo pelo canto. Meu pai sabia a espécie, o sexo, a idade, o estado de saúde — só pelo som. Ficávamos parados na mata, em silêncio, e ele sussurrava: "Esse é um coleiro jovem. Macho. Ouça como o canto ainda está incompleto."

Aprendi a escutar antes de aprender a nomear. Isso, mais tarde, me tornou um veterinário melhor do que qualquer aula me tornou.

Quando caía na rede algum pássaro que ele não queria — uma rolinha, por exemplo — ele me ensinava a decapitá-la. Levávamos para casa e comíamos.

Eu fazia.

Havia também a pesca. E lembro que me incomodava ver os peixes morrendo fora da água, abrindo a boca, sem conseguir respirar. Não entendia esse incômodo. Aprendi a ignorá-lo.

Eu amava meu pai. Ele era meu herói. Queria ser como ele em tudo.

E fui.


Hoje, mais de cinquenta anos depois daquelas manhãs na mata do Vale do Ribeira, sou veterinário especialista em anestesia, dor, mestre e doutor pela USP, professor universitário, ativista pela causa animal há mais de uma década. Tenho dez animais resgatados em casa — um paralítico, alguns idosos, todos com história de abandono ou sofrimento.

E às vezes eu paro, em silêncio, e ouço os sons que vêm do quintal.

É a mesma escuta que meu pai me ensinou. O mesmo silêncio, a mesma atenção.

Só que agora as portas estão abertas.


Esse é o primeiro texto de uma série onde vou contar minha trajetória — das gaiolas do Belenzinho até aqui, passando por lugares que preferiria não ter precisado atravessar. Mas precisei. E valeu cada passo.

Se você cuida de um animal, se já perdeu um, se é veterinário ou estudante de vet — fica. Essa história é sua também.